O vírus que nos faz parar para pensar…

2 de abril de 2020

Apesar dos problemas internos, o Sistema Único de Saúde (SUS) brasileiro é um modelo para os demais países em desenvolvimento e tem uma significativa vantagem sobre as grandes nações européias e os Estados Unidos. O SUS é um dos maiores sistemas públicos de saúde do mundo, sendo o único a garantir assistência integral e completamente gratuita para a totalidade da população (apesar de haver vários sistemas de saúde no mundo, mesmo que sejam públicos, não necessariamente são gratuitos para todos).

Assim, o SUS está sendo o elemento central no enfrentamento do novo Coronavírus e passará por um dos maiores desafios desde a sua criação: combater essa pandemia. O sistema vai muito além do atendimento aos doentes, pois compreende a rede básica com unidades de urgência, emergência, terapia intensiva e internação. No caso do Coronavírus, pode-se perceber essa articulação pelo fato de que muitos casos mais leves da doença estão em isolamento dentro das próprias casas, sendo assistidos por equipes e profissionais que atuam em unidades básicas de saúde. Já um percentual menor poderá ter um quadro respiratório grave, que irá exigir internação, UTI, respirador, e também irá usufruir do sistema. Infelizmente, no Brasil, essa estrutura ainda é muito heterogênea, há estados  e municípios que têm uma boa infraestrutura. Já outros, estão totalmente desassistidos. O exemplo disso é que cerca de 60% dos municípios brasileiros não têm nenhum respirador disponível em suas unidades de saúde.

Neste momento, entendo que uma das missões mais importantes do governo federal é ser transparente, alinhar o discurso e tentar fazer frente à indústria de notícias falsas, que está ganhando de goleada. Venho acompanhando o trabalho responsável e incansável do Ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta, que está na linha de frente do combate à pandemia no Brasil, tendo um procedimento correto, dentro do protocolo internacional. Sua atuação racional, permanecendo ao lado da ciência e recomendando o isolamento social como forma de desacelerar a disseminação do novo Coronavírus, tem sido elogiada e reconhecida pela população.

É um momento difícil, complicado, e o vírus já está circulando no País e no Estado – felizmente, ainda não está na nossa cidade. A transmissão do vírus está acontecendo de forma rápida. Por isso, mais do que nunca precisamos tomar medidas de conteção e o esforço de toda a população é fundamental para salvar vidas. A principal medida é ficar em casa – a única forma que existe, no momento, para atenuar a circulação do vírus.

Vamos sair dessa! O episódio do Coronavírus vai passar, mas vai  deixar algumas marcas e um alerta para os governantes: o SUS precisa ser fortalecido. Infelizmente, a partir da aprovação da Emenda Constitucional 95, que congelou os gastos sociais por 20 anos, passamos a ter cortes significativos de recursos financeiros para o  SUS – mais precisamente, cerca de R$ 20 bilhões desde o início da vigência dessa emenda. Quando analisamos, de 2016 para cá, a quantidade de recursos que está indo para o SUS tem sido reduzida, em termos reais.

A saúde está intimamente relacionada ao princípio da dignidade humana. Neste sentido, o SUS precisa ser revisto, mas no sentido de ampliar as suas ações que não são poucas e ainda desconhecidas para grande parte da população brasileira. Diante do medo e do temor que essa pandemia causou, percebemos como é importante ter um sistema universal de saúde, que – de fato – possa proteger a sociedade brasileira. Por fim, para que o SUS avance, é fundamental a compreensão e participação de toda a comunidade em sua defesa, exigindo dos governantes o financiamento e gestão adequada para sua efetividade.

Dr. José Nowicki Mustafa
Médico

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